sábado, 3 de dezembro de 2016

O Homem - Geleia

Imagem reprodução: Youtube

Observação geral: há quem se creia sensível porque é capaz de chorar por coisas corriqueiras, porque se emociona com um vídeo de gatinhos, porque lacrimeja segurando a mão da namorada durante um filme romântico, coisas do tipo. Entre parte dos homens, essa capacidade molenga é ostentada como trunfo, superação, porque, historicamente, a imagem do homem é ligada à dureza. O sujeito tem a certeza de que é uma alma boa e sensível porque permite que seus sentimentos aflorem. Contudo, estupidificado por uma vida dada a mediocridades, é incapaz de contemplar a beleza onde ela realmente existe e persiste -- numa peça musical, numa obra de arte, num clássico literário, numa verdade. Arrepia-se e estremece com frases frívolas rimadas em um roquezinho, mas não possui a mais distante pista do que seja o belo de fato. No máximo, diz que "admira arte" ou "boa música" porque pega bem enquanto se sorve um "bom vinho", garante-lhe ar elevado, é chique. Mas não lhe exija distinções: sua admiração é para absolutamente tudo com o que as pessoas "normais" não estão acostumadas -- "Elas assistem novela; eu, séries e Almodóvar. Elas ouvem sertanejo e funk; eu, MPB, Chico, Caetano. Elas nem sabem o que é arte, não sabem apreciar um Sebastião Salgado, um Romero, uma Tarsila."

Esse homem -- chamemo-lo homem-geleia -- se acha muito superior ao restante por causa de seus gostos e dessa suposta sensibilidade, mas isso tudo, somado à relutância em não passar da epiderme de absolutamente nada, apenas revela que se trata de um fruto de casca mole e interior duro -- desprezível e descartável, portanto; como seus hábitos. É como uma semente de ingá: molenga e gosmenta por fora, dura e imprestável por dentro. E isso explica muito dos conflitos e dos dramas contemporâneos, do porquê mulheres (já tonteadas por progressismos baratos) não conseguem achar um "homem que preste". Esse homem, o "que preste", ao longo da História, sempre foi duro por fora, em suas reações aos perigos e às necessidades, em sua postura honrada, briosa e máscula; contudo, por dentro, saina expressá-lo ou não, é verdadeiramente sensível, flexível, de sentimentos realmente bons e elevados.

O homem-geleia se orgulha porque chora por fora, diferentemente dos brutos; mas, por dentro, o bruto -- e seco -- é ele. Já o homem aparentemente bruto ou insensível sabe que deve manter-se impávido colosso porque deve agir e reagir assertivamente, para fazer o que é preciso. Ante o perigo e a necessidade, o homem aparenta dureza porque sabe que deve fazer algo; e o sabe justamente porque é no seu interior que estão os verdadeiros sentimentos, que o motivam e o movem. Já o geleia, ante o perigo ou a necessidade, reage com toda sua sensibilidade superficial: chora e se desespera. Ademais, fica imóvel; se se mexe, é para correr, para fugir do compromisso, da responsabilidade. E, assim, os relacionamentos, as vocações, os projetos de vida, a caminhada na direção da Verdade, enfim, tudo que realmente importa e que deixa rastro não resiste, desmorona, dura pouco, porque pouca é a tenacidade e a consistência das almas geleiosas.
Foto reprodução:
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Colombo Mendes, 31 anos, 
é editor e escritor 

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